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Intensidades no Treino

Distribuição de Intensidades no Treino

O segredo para evoluir sem ficar sempre cansado

Imagina que o teu corpo é como um fogão.

Se estiver sempre no máximo, queima tudo demasiado depressa.
Se estiver sempre no mínimo, a comida nunca fica pronta.
Treinar bem é saber quando usar o lume baixo e quando ligar o lume forte.

É exatamente isso que chamamos distribuição de intensidades.


O que é, afinal, a distribuição de intensidades?

A distribuição de intensidades é a forma como dividimos o tempo de treino entre esforços:

  • fáceis,

  • médios,

  • e muito difíceis.

Não se refere a um treino isolado, mas sim:

  • à semana,

  • ao mês,

  • ou a toda a época.

Ou seja, não interessa apenas o que fizeste hoje, mas como todos os treinos juntos contam uma história.


As três “velocidades” do corpo

Para simplificar, o corpo funciona como um carro com três mudanças principais.

1️⃣ Primeira mudança – Treino fácil

É o treino onde consegues falar frases completas.
O corpo usa principalmente gordura como combustível e constrói as “centrais de energia” chamadas mitocôndrias.

É aqui que se cria a base.


2️⃣ Segunda mudança – Treino médio

Já não é confortável, mas também não é máximo.
Respiração acelerada, difícil falar.

Este tipo de treino parece produtivo… mas é traiçoeiro.


3️⃣ Terceira mudança – Treino forte

Aqui o corpo trabalha perto do limite.
O coração bate forte, o oxigénio é usado ao máximo e o corpo aprende a tolerar esforço intenso.

Este treino é curto, mas muito importante.


O erro mais comum: andar sempre na “segunda mudança”

Muitos atletas treinam sempre assim:

  • nem muito fácil,

  • nem muito forte.

É como tentar cozinhar tudo em lume médio.

O problema é que:

  • não é suficientemente fácil para recuperar,

  • nem suficientemente intenso para melhorar muito.

Resultado? Cansaço, estagnação e frustração.

A ciência chama a isto excesso de intensidade moderada.


Como treinam os atletas que evoluem mais?

Estudos com atletas de elite mostram algo surpreendente:

Eles passam a maior parte do tempo a treinar fácil.

E quando treinam forte, treinam mesmo forte.

Este modelo chama-se treino polarizado.


O modelo polarizado explicado como um gelado

Imagina um gelado com três camadas:

  • Base grande → treino fácil (cerca de 70–80%)

  • Topo pequeno → treino muito intenso (15–20%)

  • Quase nada no meio → pouco treino médio

Este equilíbrio permite:

  • melhorar a resistência,

  • aumentar o VO₂ máximo,

  • recuperar melhor,

  • treinar de forma consistente.


Porque é que o treino fácil é tão importante?

O treino fácil:

  • constrói mitocôndrias,

  • melhora a utilização de gordura,

  • fortalece o coração,

  • permite treinar mais dias seguidos.

É como construir estradas largas antes de acelerar o carro.

Sem base, o treino intenso não funciona bem.


E o treino intenso, serve para quê?

O treino intenso:

  • aumenta a potência,

  • melhora o VO₂ máximo,

  • ensina o corpo a lidar com lactato,

  • prepara para momentos decisivos da prova.

Mas só funciona bem quando o corpo está descansado.

Treinar forte cansado é como tentar estudar para um teste depois de uma noite sem dormir.


Como aplicar isto numa semana normal?

Um exemplo simples:

  • 3 a 4 treinos fáceis

  • 1 a 2 treinos intensos bem definidos

  • 1 dia de descanso ou recuperação ativa

O segredo está em não misturar tudo no mesmo treino.


A grande mensagem

Evoluir não é treinar sempre mais forte.
É treinar com intenção, equilíbrio e paciência.

A distribuição de intensidades é o mapa que evita:

  • o cansaço constante,

  • as lesões,

  • e a falta de progresso.

Quem aprende a treinar fácil… consegue treinar forte quando interessa.


Conclusão

Se sentes que treinas muito mas evoluis pouco, talvez o problema não seja falta de esforço —
mas sim como esse esforço está distribuído.

No treino, tal como na vida, saber quando acelerar é tão importante como saber abrandar.


Bibliografia

Seiler, S., & Kjerland, G. Ø. (2006). Quantifying training intensity distribution in elite endurance athletes: is there evidence for an “optimal” distribution? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 16(1), 49–56. https://doi.org/10.1111/j.1600-0838.2004.00418.x

Seiler, S. (2010). What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291. https://doi.org/10.1123/ijspp.5.3.276

Stöggl, T. L., & Sperlich, B. (2015). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high intensity, or high volume training. Frontiers in Physiology, 6, 295. https://doi.org/10.3389/fphys.2015.00295


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