O Limiar de Lactato: o semáforo do teu corpo quando fazes exercício
Imagina que o teu corpo é um carro a subir uma estrada longa.
Enquanto vais numa velocidade confortável, o motor trabalha bem, não aquece demasiado e o combustível chega para o percurso todo.
Mas se começares a acelerar cada vez mais, chega um momento em que o motor começa a aquecer, o combustível gasta-se mais depressa e manter aquela velocidade torna-se impossível durante muito tempo.
No treino e no desporto, esse “momento crítico” chama-se limiar de lactato.
O que é o lactato? (e porque não é o vilão da história)
Durante muito tempo, disse-se que o lactato era o responsável pela fadiga e pela dor muscular. Hoje sabemos que isso não é verdade.
O lactato é como o lixo reciclável do corpo:
-
aparece quando usamos energia rapidamente,
-
pode ser reutilizado como combustível,
-
e ajuda o corpo a comunicar que a intensidade está a aumentar.
Segundo Brooks (2009), o lactato é uma molécula energética e sinalizadora, essencial para o funcionamento do metabolismo durante o exercício.
Ou seja: o lactato não é o problema.
O problema é quando ele aparece mais depressa do que o corpo consegue reutilizar.
O que é, afinal, o limiar de lactato?
O limiar de lactato é a intensidade de exercício a partir da qual:
-
o corpo começa a produzir lactato mais rápido,
-
do que consegue limpar e reutilizar.
Até esse ponto, o organismo está em equilíbrio.
Depois desse ponto, o esforço deixa de ser sustentável durante muito tempo.
Uma boa metáfora é um lava-loiça:
-
enquanto a água que entra é igual à que sai, não há problema,
-
mas se a torneira abrir mais do que o ralo consegue escoar, o lava-loiça enche.
O limiar é exatamente o momento em que a torneira abre mais do que o ralo aguenta.
LT, MLSS e FTP: nomes diferentes para a mesma ideia
Na ciência do desporto existem vários nomes para este conceito:
-
LT (Lactate Threshold) – usado em fisiologia e laboratório
-
MLSS (Maximal Lactate Steady State) – a maior intensidade ainda estável
-
FTP (Functional Threshold Power) – muito usado no ciclismo
No ciclismo, o FTP é definido como a potência máxima que uma pessoa consegue manter durante cerca de 60 minutos.
Não é um número mágico, mas é uma ferramenta prática para transformar fisiologia em treino real (Allen & Coggan, 2010).
O que acontece no corpo quando treinamos perto do limiar?
Treinar perto do limiar é como ensinar o motor do carro a:
-
aquecer menos,
-
gastar menos combustível,
-
e aguentar mais tempo a uma velocidade alta.
Fisiologicamente, este tipo de treino:
-
melhora o funcionamento das mitocôndrias,
-
aumenta a capacidade de usar lactato como energia,
-
melhora a economia de movimento,
-
ensina o corpo a aguentar esforço intenso sem “rebentar”.
Por isso, diz-se muitas vezes:
Treinar no limiar não serve para ir mais rápido por momentos,
serve para ir rápido durante mais tempo.
Porque o limiar é tão importante nos desportos de endurance
Em modalidades como:
-
ciclismo de estrada,
-
corrida de longa distância,
-
triatlo,
o limiar funciona como um ritmo de referência.
É ele que ajuda a decidir:
-
a que ritmo competir,
-
a que intensidade treinar,
-
quando atacar e quando gerir esforço.
Estudos mostram que atletas com limiar elevado conseguem melhores desempenhos, mesmo que não tenham o VO₂ máximo mais alto (Coyle et al., 1988).
E nos desportos explosivos, como o BMX?
No BMX Race ou em desportos de sprint, o limiar não decide quem ganha a corrida.
Mas decide:
-
quem recupera mais rápido entre mangas,
-
quem aguenta várias repetições de esforço,
-
quem mantém potência até ao fim do dia.
Mesmo em desportos explosivos, um bom limiar funciona como um sistema de recuperação mais eficiente.
Como saber onde está o teu limiar (sem laboratório)
Nem todos precisam de testes complexos.
Na prática, usam-se:
-
testes de 20 minutos,
-
testes de 30 minutos,
-
testes progressivos com perceção de esforço.
O mais importante não é o método perfeito.
É usar sempre o mesmo método, para conseguir comparar a evolução ao longo do tempo.
O erro mais comum: treinar sempre “um bocadinho acima”
Muitos praticantes cometem o mesmo erro:
-
não treinam muito fácil,
-
nem treinam muito forte,
-
treinam sempre “mais ou menos”.
Esse “mais ou menos” é muitas vezes acima do limiar.
Resultado?
-
fadiga constante,
-
pouco progresso,
-
sensação de andar sempre cansado.
O limiar não é uma intensidade para usar todos os dias.
É um marco, um sinal de trânsito que ajuda a organizar o treino.
Conclusão: o limiar é o semáforo do treino
O limiar de lactato funciona como um semáforo interno:
-
verde: esforço confortável e sustentável,
-
amarelo: atenção, esforço elevado,
-
vermelho: esforço que não dura muito tempo.
Compreender este conceito é o que transforma treino aleatório em treino inteligente.
No próximo passo, a grande pergunta deixa de ser “onde está o limiar” e passa a ser: quanto tempo devemos treinar abaixo, perto e acima dele?
Bibliografia
Allen, H., & Coggan, A. (2010). Training and Racing with a Power Meter. VeloPress.
Brooks, G. A. (2009). Cell–cell and intracellular lactate shuttles. Journal of Physiology, 587(23), 5591–5600. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2009.178350
Coyle, E. F., Coggan, A. R., Hopper, M. K., & Walters, T. J. (1988). Determinants of endurance in well-trained cyclists. Journal of Applied Physiology, 64(6), 2622–2630. https://doi.org/10.1152/jappl.1988.64.6.2622
Faude, O., Kindermann, W., & Meyer, T. (2009). Lactate threshold concepts. Sports Medicine, 39(6), 469–490. https://doi.org/10.2165/00007256-200939060-00003
Discover more from ProjetoPEDAL
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
