Aqui Vamos Nós Outra Vez: As Rodas de 32 Polegadas e o Ciclo Infinito da Indústria do Ciclismo
Está a correr por todo o lado a novidade: a UCI autorizou oficialmente o uso de bicicletas com rodas de 32 polegadas em competição. E, sinceramente, só apetece dizer: aqui vamos nós outra vez.
Quem viveu a transição das 26 para as 29 lembra-se bem do filme. Primeiro, resistência. Depois, confusão. E pelo meio, aquela fase das 27.5 — ou 650b, para soar mais técnico — muito por causa de um certo Nino Schurter que, alegadamente, não queria deitar fora a agilidade das 26. As marcas, aflitas para agradar à estrela do momento (que basicamente ditava tendências), criaram o “meio termo” que lhes permitia vender mais uns quadros e mais uns componentes. Mas o final estava escrito: a roda 26 iria desaparecer do segmento performance.
Dois a três anos depois, os catálogos estavam limpinhos: roda 26 só para gamas básicas. O praticante tinha duas opções: ou não trocava de bicicleta, ou — se quisesse continuar a acompanhar a evolução do equipamento — tinha de ir para 29.
O mercado não pede licença. Impõe-se. Quem quiser fica, quem não quiser fica para trás.
Hoje ainda se vê muito ferro velho de 26 em passeios de domingo, mas nos trilhos é um domínio absoluto das 29. Normal — tornou-se o padrão. E eu, confesso, aprendi qualquer coisa nestes últimos 15 anos: se as marcas quiserem mesmo, amanhã estaremos todos a pedalar em rodas de 32, mesmo que para 90% dos ciclistas isso não faça grande sentido.
O Mito do Tamanho: Benefícios Reais ou Vendas Garantidas?
Os argumentos são os mesmos da última revolução:
roda maior ultrapassa obstáculos com mais facilidade;
rola melhor depois de ganhar velocidade;
aproveita melhor a energia cinética.
Tudo verdade. Mas também é verdade que, quanto maior o “giroscópio”, maior a dificuldade em mudar a direcção. Isso exige mais alavanca — daí os guiadores largos, que muitos acham exagerados. Agora imagina isto com uma roda de 32 polegadas. Guiadores de quê? 820 mm?
E depois há o elefante na sala:
o ciclista médio não tem potência infinita.
Entre 2015 e 2023, em cerca de 1.500 avaliações realizadas em ambiente controlado, a média de FTP de praticantes recreativos do sexo masculino (16 a 68 anos) foi de 210 watts. É esta a realidade. Aumentar massa rotacional para um público que luta para manter 3 W/kg é, no mínimo, questionável.
Sim, a roda 32 pode ser vantajosa em elites, maratonistas de topo ou gigantes de 1,95 m. Mas para o resto… vamos pagar a factura em arranques, reacelerações e maneabilidade.
O Timing Não Engana: O Pós-Covid e os Stocks por Despachar
Estamos agora a sair da bolha criada pelo COVID — aquela onde as marcas produziram em excesso, acreditando que o “boom” duraria para sempre. Spoiler: não durou.
Resultado?
Dumping de stocks em países secundários como Portugal e várias regiões da América Latina.
Uma batalha feroz por manter margens.
Um mercado saturado de bicicletas que já estavam ultrapassadas antes de saírem da caixa.
E quando a indústria fica encurralada, o que faz?
Cria uma nova necessidade.
Foi assim com as 29.
Foi assim com o boost spacing.
Foi assim com o “SuperBoost”.
Foi assim com as transmissões de 12 velocidades, que rapidamente passaram para 13 em gravel.
E agora… será assim com as 32.
Não é preciso grande bola de cristal:
primeiro vêm os early adopters — os que “têm de ter sempre a última coisa”.
Depois surgem as reviews, os vídeos, os comparativos.
Seguem-se as provas onde subitamente “todos os profissionais usam”.
E finalmente, as marcas deixam de fabricar quadros e rodas em 29 para gamas mais altas.
Fim da história. Ou melhor… repetição da história.
Eu, por via das dúvidas, já comprei pipocas para ver a sequela deste franchise.
Em breve saberemos o que é viver a vida inteira a olhar para cima… mas só porque a roda não pára de crescer.
Projetopedal
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