2026 não será um ano comum no ciclismo.
Será o ponto de viragem económica mais profundo desde a crise financeira de 2008 — mas desta vez provocado por fatores internos: escolhas estratégicas erradas, má leitura do mercado, saturação de produto, ausência de visão e incapacidade de acompanhar a mudança cultural acelerada pelas redes sociais.
O ciclismo está a mudar estruturalmente.
E quem não entender esta mudança vai ficar pelo caminho.
1. O mercado desportivo está a encolher — e isso era inevitável
Os anos da pandemia criaram uma ilusão de crescimento:
lojas abriram como cogumelos,
o stock desaparecia,
o consumidor comprava por impulso,
as marcas acharam que o boom era permanente.
Mas foi um pico artificial.
Em 2026, o mercado regressa ao seu tamanho natural — e é menor do que o número de empresas que agora nele competem.
O resultado é simples:
menos compradores + mais oferta = crise inevitável.
2. As rodas 32” no BTT vão gerar instabilidade — e instabilidade trava vendas
As 32” são o pior tipo de inovação: a inovação que cria dúvida.
Quando surge um novo standard, o consumidor trava a compra:
“Compro agora ou espero?”
“Vai tornar o meu investimento obsoleto?”
“Este formato vai mesmo pegar?”
As primeiras 32” serão bicicletas imaturas, pesadas, mal resolvidas — compradas só por experimentalistas.
Depois virão 3 a 5 anos de ajustes, novas geometrias, novos eixos, novas incompatibilidades.
E o mercado, que já está frágil, vai congelar.
3. As hardtail estão a desaparecer — e isso altera profundamente a economia das lojas
As hardtail eram:
baratas,
fáceis de vender,
simples de manter,
ótimas para iniciação,
frequentes na oficina.
Eram o modelo que sustentava a tesouraria das lojas.
Mas agora:
deixaram de ser desejáveis,
deixaram de fazer sentido técnico,
deixaram de ser aspiracionais,
foram esmagadas pelas full suspension acessíveis e pelas e-bikes.
Sem hardtails, desaparece um volume enorme do mercado.
E para muitas lojas, isso significa perder 40% do seu fluxo de manutenção e venda de periféricos.
4. O BTT tradicional está em declínio — demasiado técnico, demasiado caro, demasiado especializado
O BTT moderno evoluiu num caminho que serve os atletas — mas afasta a maioria das pessoas.
Hoje, para muitos:
é demasiado arriscado,
demasiado complexo,
demasiado caro,
demasiado técnico,
demasiado afastado da experiência “simples” que o público quer.
O BTT que cresceu nos anos 2000 — simples, exploratório, lúdico — praticamente desapareceu.
E com ele desaparece a economia que sustentava:
pneus,
suspensão,
travões,
transmissões,
reparações constantes.
O cliente que mantinha as lojas abertas está a sair.
5. As e-Bikes criam dois mercados — mas não salvam o BTT
As e-bikes foram a única novidade realmente sólida da última década.
Mas criaram dois mercados separados, não um mercado único:
1) Os “jovens maduros” (30–50) que fazem e-Enduro
São técnicos,
procuram trilhos exigentes,
usam bicicletas caras,
mas são numericamente poucos.
2) Os 50+ que procuram lazer e natureza sem sofrimento
Fazem trilhos simples,
pedalam devagar,
querem autonomia e estabilidade,
não partem material,
fazem manutenção mínima.
A e-bike mantém pessoas no ciclismo — mas não substitui a economia do BTT tradicional.
É um mercado complementar, não compensatório.
6. O gravel torna-se o novo centro do ciclismo recreativo
O gravel consolida-se porque oferece aquilo que o público quer:
simplicidade,
liberdade,
estética,
baixa manutenção,
descoberta,
versatilidade,
compatibilidade com social rides.
É o formato que cresce mais depressa porque tem propósito.
E reconquista uma ideia básica:
pedalar fora de estrada… mas sem complicações.
As marcas vão centrar gamas no gravel porque é onde há crescimento real.
7. A estrada cresce à boleia das Social Rides — mas é um mercado leve
A estrada tornou-se cultural:
estilo,
fotografia,
convívio,
pertença,
moda premium.
É aspiracional — mas economicamente fraca.
Porquê?
Porque o utilizador de estrada:
leva a bicicleta 1 vez por ano à oficina,
usa menos material,
quase não parte componentes,
compra roupa online,
pedala por convivência e estética, não por desgaste ou performance.
O crescimento da estrada é cultural, não económico.
Não vai salvar lojas, nem marcas, nem oficinas.
8. As lojas vão viver o pior ano das últimas décadas
Isto é, talvez, o ponto mais dramático de 2026.
A pandemia fez abrir demasiadas lojas.
Agora que o mercado voltou à normalidade:
a fatia de cada uma é pequena demais,
as margens desapareceram,
o cliente do BTT evaporou,
o cliente da estrada não paga as contas,
as e-bikes exigem formação técnica que nem todas dominam.
As lojas vão apertar o cinto.
Algumas resistem.
Mas muitas vão começar a ver o osso — e vão fechar.
É doloroso, mas inevitável.
9. E o maior erro estratégico das marcas: ignorar a mobilidade urbana
Este é o ponto chave:
o mercado do ciclismo não está a encolher — está a deslocar-se.
A mobilidade urbana é:
o maior crescimento da indústria,
o principal foco da Europa,
onde se vão concentrar incentivos públicos,
onde estão os consumidores diários,
onde há desgaste real,
onde há volume,
onde está o futuro.
E as marcas tradicionais estão…
viradas para trás.
Obcecadas por estrada premium.
Obcecadas por gravel.
Obcecadas por BTT cada vez mais técnico.
E completamente ausentes do commuting, das e-bikes urbanas, das dobráveis, das city bikes inteligentes.
Enquanto isso, quem ocupa o espaço?
marcas tecnológicas,
marcas de automóveis,
startups digitais,
empresas de mobilidade leve.
O erro é monumental.
E vai custar caro.
Conclusão: 2026 será um ano de seleção natural
O ciclismo entra num ciclo de ajuste duro:
as marcas vão ter de reinventar gamas,
as lojas vão encolher,
o BTT vai continuar a perder massa,
o gravel e a estrada cultural vão crescer,
as e-bikes vão fragmentar o mercado,
a mobilidade urbana vai tornar-se o motor económico global.
Quem se adaptar sobrevive.
Quem insistir nos modelos antigos desaparece.
2026 não será uma crise — será uma correção histórica.
E o ciclismo, pela primeira vez, terá de decidir se quer continuar a ser apenas um desporto… ou tornar-se parte essencial da vida diária das pessoas.
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