O ciclismo atravessa hoje um momento de introspeção profunda. Olhando para as notícias mais recentes, parece que estamos perante dois mundos distintos: de um lado, a elite do ciclismo de competição; do outro, o ciclista que utiliza a estrada para deslocações quotidianas ou lazer. No entanto, embora as velocidades e os objetivos sejam diferentes, ambos enfrentam crises estruturais que convergem num ponto comum: a sustentabilidade do ecossistema das duas rodas.
O Ciclismo de Competição: Um Modelo em Falha?
Recentemente, vozes influentes no setor, como Fran Millar (CEO da Rapha), trouxeram a público uma realidade desconfortável: o ciclismo profissional falhou estrutural e comercialmente. Apesar de ser um dos desportos mais seguidos do mundo, a sua dependência quase exclusiva de patrocínios e a falta de uma estrutura comercial sólida impedem que o desporto cresça de forma equitativa e segura.
A cultura criada pela competição é o motor aspiracional do mercado. É ela que vende bicicletas de alta performance e tecnologia de ponta. Mas, se o “topo da pirâmide” não consegue encontrar um modelo de negócio sustentável, toda a cultura de marca e o investimento em inovação correm o risco de estagnar.
A Realidade das Estradas: O Medo como Barreira
Enquanto a elite discute modelos de negócio, o ciclismo urbano e de lazer enfrenta uma barreira muito mais visceral: a segurança. Dados recentes sobre a sinistralidade rodoviária em Portugal mostram que, em vez de avançarmos para uma redução efetiva de mortes na estrada, parece que “andamos no filme contrário”.
A mensagem que passa para o cidadão comum é clara: a estrada é um ambiente hostil. Esta perceção destrói qualquer tentativa de promover a bicicleta como um meio de transporte viável ou mesmo como uma atividade física acessível a todos. Se o ciclismo de competição cria a vontade de pedalar, a falta de segurança rodoviária retira a coragem para o fazer.
A Ligação Indissociável: Cultura e Mercado
Estes “dois ciclismos” estão ligados através da cultura que criam. O mercado do ciclismo desportivo alimenta o urbanismo com tecnologia e prestígio, enquanto o ciclismo urbano deveria alimentar a base de praticantes e entusiastas que sustentam o desporto a longo prazo.
Quando a competição falha comercialmente, o investimento em segurança e infraestrutura para o ciclista comum também sofre, pois a influência política do setor diminui. Inversamente, quando a segurança nas estradas falha, o mercado desportivo perde potenciais novos praticantes. É um ciclo que, se não for invertido, trava o crescimento de um setor que tem tudo para ser a solução para problemas modernos de saúde e mobilidade.
O caminho para o futuro exige uma visão integrada. O ciclismo não pode ser visto apenas como um desporto de elite nem apenas como um modo de transporte; deve ser encarado como um ecossistema único onde a segurança de quem pedala na cidade é tão vital quanto a saúde financeira de quem corre na Volta a França. Só assim conseguiremos mudar o rumo desta história.
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