O Comentário que “Incendiou” as Redes: Será o Desporto o Inimigo dos Antidepressivos?
Recentemente, deparei-me com um cabeçalho na página da Fundação Francisco Manuel dos Santos que dizia: “Um país com o nível mais elevado de antidepressivos tem de querer dizer alguma coisa”. Ao ler os comentários, encontrei um cenário desolador de autocomiseração e uma aceitação passiva de quem se arrasta pela vida.
Não resisti e deixei um comentário simples: “Um país que não investe na atividade física e no desporto, só pode resultar nisto!”
O que se seguiu foi uma avalanche de mensagens privadas. Fui insultado, disseram-me “espero que nunca passes por tal” e a clássica “devias ter alguém na família com depressão”. As redes sociais têm este condão: as pessoas julgam sem conhecer a face por trás do ecrã.
Atrás do Treinador, Existe uma Pessoa
As pessoas que me enviaram mensagens a desejar “coisas menos boas” não fizeram o exercício de saber quem eu sou. Sou treinador, sim, mas antes disso sou humano. O que elas não sabem é que a depressão não me é estranha. Tive alguém muito próximo que pôs fim à vida.
Aprendi da pior forma que quem desiste da vida, muitas vezes, não anda a arrastar sentimentos de forma óbvia; pelo contrário, camufla-os. Há uma diferença abissal entre “ter uma depressão” (uma patologia clínica complexa) e “estar deprimido” (um estado muitas vezes alimentado pelo estilo de vida).
O Antidepressivo deve ser uma Ponte, não um Destino
Como treinador, a minha visão é moldada pelo estudo constante do comportamento humano e pela experiência no terreno. Já vi dezenas de pessoas “vencerem” os antidepressivos com:
Um par de sapatilhas e vontade de caminhar.
Uma bicicleta de 100 euros e o vento na cara.
A decisão de trocar o isolamento pelo movimento.
Os antidepressivos podem e devem ser um modelo transitório — uma ajuda para tirar a cabeça de fora de água. O problema é quando se tornam um modo de vida ad eternum.
O Paradoxo da Facilidade
A verdade é desconfortável:
É fácil começar uma atividade física? Sim, basta dar o primeiro passo.
Mas é mais fácil não o fazer? Sem dúvida. É muito mais cómodo manter a inércia e aceitar a pílula como a única solução.
O investimento no desporto não é apenas sobre “ter bons abdominais”. É sobre literacia motora, sobre dar ao cérebro a química natural de que ele precisa para processar o stress, a ansiedade e a frustração.
Enquanto olharmos para o desporto como um luxo ou um castigo, e não como uma ferramenta de saúde mental, continuaremos a ser o país que lidera as tabelas da medicação, mas que fecha a porta à solução mais barata e eficaz que existe: o movimento.
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