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Ciclismo e Hotelaria em Portugal: Por que ainda há tanta resistência?

No ano passado, ao longo da mítica Estrada Nacional 2, deparei-me com algo que, sendo pontual, seria aceitável. Mas não foi. Foram vários os casos de hotéis que simplesmente se recusaram a compreender — ou pior, a respeitar — necessidades básicas de quem viaja de bicicleta.

Importa clarificar: não estamos a falar de unidades sem condições. Não estamos a falar de limitações estruturais ou logísticas legítimas. Estamos a falar de hotéis que tinham espaço, tinham capacidade e, em alguns casos, tinham até previamente acordado por escrito guardar bicicletas… e que, no momento decisivo, recusaram. Sem alternativa. Sem negociação. Sem respeito.

Uma dessas situações ultrapassou claramente o aceitável, criando obstáculos desnecessários e demonstrando uma total ausência de sensibilidade para o cliente que tinham à frente.

Este ano, ao organizar uma rota no Norte de Portugal, decidi mudar de abordagem. Em vez de correr riscos no terreno, comecei a filtrar logo à partida. Ao mais pequeno sinal de alerta — uma resposta vaga, uma hesitação, uma política pouco clara — a decisão foi imediata: excluir. Evitar o problema antes que ele exista.

E isso levanta uma questão inevitável:

o que se passa com a hotelaria em Portugal?

Será que o setor compreende verdadeiramente o que é o ciclismo hoje? Ou continua preso a uma visão ultrapassada, quase caricatural, do ciclista como alguém marginal, sem poder económico ou relevância turística?

Essa visão está completamente desfasada da realidade.

O ciclismo moderno é uma cultura global. É uma indústria. É uma tendência consolidada. Há quem atravesse países e continentes de bicicleta. Há quem escolha destinos exclusivamente para pedalar. Há quem organize férias inteiras em torno de provas, eventos ou experiências sobre duas rodas.

E há dados concretos.

No ProjetoPedal, identificamos que o ciclista médio tem entre os 24 e os 54 anos. Não é um detalhe irrelevante — é um indicador claro de um perfil ativo, economicamente participativo e com poder de decisão.

Mais: praticar ciclismo exige dois recursos críticos — dinheiro e tempo.

Dinheiro, porque o ciclismo não é barato. Não se trata apenas da bicicleta. Trata-se da manutenção constante, dos consumíveis, do equipamento técnico (capacete, sapatos, vestuário), dos acessórios, das revisões. E, sobretudo, das experiências: participar numa prova pode facilmente custar entre 100€ e 300€, excluindo deslocações, estadia e alimentação.

Tempo, porque sem ele não há prática consistente. E hoje, tempo é um dos ativos mais escassos e valiosos. Quem tem disponibilidade para treinar, viajar e participar, está inevitavelmente num segmento privilegiado.

Agora somemos os dois fatores: quem tem dinheiro e tempo.

Esse é o cliente do ciclismo atual.

E não vem sozinho. Muitas vezes viaja com família. Prolonga estadias. Consome restauração local. Procura experiências. Gera impacto económico direto e indireto.

Perante isto, a pergunta torna-se ainda mais pertinente:

estará a hotelaria portuguesa a perceber o valor deste mercado?

Ou estará, inadvertidamente, a afastar um segmento em crescimento, com elevado poder de consumo e forte tendência para a fidelização?

A recusa em guardar uma bicicleta — algo que, na maioria dos casos, exige apenas vontade e organização mínima — não é um detalhe operacional. É um sinal. Um sinal de desalinhamento com uma realidade que já não é futura, é presente.

Outros países perceberam isto há muito. Adaptaram-se. Criaram certificações “bike friendly”. Desenvolveram serviços específicos: espaços seguros, kits de manutenção, horários flexíveis para pequenos-almoços, lavandarias adaptadas, informação sobre rotas.

Portugal tem tudo para ser um destino de referência mundial no ciclismo. Clima, geografia, diversidade paisagística, segurança relativa, gastronomia.

Mas falta, ainda, uma peça essencial: mentalidade de serviço orientada para este público.

A hotelaria não precisa de investir fortunas para acolher ciclistas. Precisa, acima de tudo, de compreender quem eles são.

Porque ignorar este mercado não é apenas uma falha de serviço.

É, muito provavelmente, um erro estratégico.


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