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Lactato: o vilão que afinal ajuda o teu corpo a ficar mais forte

Lactato: o vilão que afinal ajuda o teu corpo a ficar mais forte

Durante anos, o lactato foi tratado como o grande culpado da dor, da fadiga e daquele ardor terrível nas pernas quando o esforço aperta. Quantas vezes ouviste alguém dizer: “Tenho ácido láctico acumulado”?

A ciência mostra-nos algo muito diferente — e muito mais interessante.

Neste artigo, vamos explicar o que é o lactato, porque não é um inimigo, e como ele pode ajudar a melhorar o desempenho desportivo, usando exemplos simples, metáforas fáceis de entender e rigor científico.


Imagina o teu corpo como uma cidade energética

Pensa no teu corpo como uma grande cidade.
Os músculos são fábricas.
A energia chama-se ATP (adenosina trifosfato).
E o combustível principal é o açúcar (glicose).

Sempre que te mexes — a andar, a pedalar, a correr — essas fábricas precisam de produzir energia rapidamente. Para isso, usam um processo chamado glicólise.

E aqui entra a personagem principal da nossa história: o lactato.


O que é afinal o lactato?

O lactato é como uma camioneta de transporte.

Quando a fábrica muscular está a trabalhar depressa, produz energia e, ao mesmo tempo, cria lactato. Esse lactato não é lixo. É energia em movimento.

O lactato é uma forma inteligente do corpo guardar e transportar energia.

Mesmo quando estás a fazer exercício leve, o teu corpo já produz lactato. A diferença é que, em intensidades baixas, ele é reutilizado tão depressa que nem dás por ele.


E o famoso “ácido láctico”? Spoiler: não é o vilão

Aqui entra um dos maiores mitos do desporto.

O ácido láctico, tal como é falado no ginásio ou no café, praticamente não existe no corpo humano.

O que realmente acontece é isto:

  • O lactato vem acompanhado de iões de hidrogénio (H⁺)

  • São esses iões que tornam o meio mais ácido

  • Essa acidez interfere com a contração muscular

É essa alteração que causa:

  • Ardor

  • Perda de força

  • Sensação de “pernas presas”

O lactato aparece quando o corpo está sob stress, mas não é ele que causa o problema.


O lactato como combustível secreto

Aqui a história fica ainda melhor.

O lactato pode ser:

  • Usado por fibras musculares mais lentas

  • Enviado para o coração (que adora lactato)

  • Transformado novamente em glicose no fígado

  • Aproveitado pelo cérebro

Ou seja, o lactato é como uma moeda energética reciclável.

Estudos mostram que atletas bem treinados conseguem usar o lactato como fonte de energia de forma muito eficiente (Brooks, 2009).


Porque é que alguns atletas “aguentam mais” que outros?

A diferença não está em quem produz menos lactato.
Está em quem sabe lidar melhor com ele.

Atletas treinados têm:

  • Mais mitocôndrias (as “centrais elétricas” da célula)

  • Melhor transporte de lactato entre células

  • Maior capacidade de o usar como energia

Resultado?
Conseguem manter esforços mais intensos durante mais tempo, sem “rebentar”.


Como treinar para melhorar a relação com o lactato

Aqui entra o treino inteligente.

1. Construir a base (Zona 2)

Treinos confortáveis, onde consegues falar frases completas.

Este tipo de treino:

  • Aumenta o número de mitocôndrias

  • Ensina o corpo a reutilizar lactato

  • Cria eficiência metabólica

Sem esta base, o corpo entra em pânico quando o esforço sobe.


2. Aprender a viver no desconforto (limiar)

Aqui o esforço já incomoda, mas é controlado.

Este treino:

  • Ensina o corpo a produzir energia com menos acidez

  • Melhora a capacidade de sustentar intensidade

  • Treina o “equilíbrio” do lactato


3. Picos curtos acima do limiar

Usados com cuidado.

Servem para:

  • Aumentar tolerância metabólica

  • Melhorar a remoção rápida de lactato

  • Preparar o corpo para mudanças de ritmo

Treinar lactato não é sofrer mais. É sofrer de forma estratégica.


O que deves realmente lembrar

  • O lactato não é lixo

  • O lactato não é veneno

  • O lactato não é o inimigo

É:

  • Um mensageiro

  • Um combustível

  • Um sinal de adaptação

O atleta que evolui não é o que foge do lactato, mas o que aprende a trabalhar com ele.


Conclusão

Da próxima vez que sentires aquele ardor nas pernas, lembra-te:
o teu corpo não está a falhar.
Está a tentar adaptar-se.

E quanto melhor treinares, melhor vais usar essa energia escondida chamada lactato.


Bibliografia

Brooks, G. A. (2009). Cell-cell and intracellular lactate shuttles. Journal of Physiology, 587(23), 5591–5600.
https://doi.org/10.1113/jphysiol.2009.178350

Brooks, G. A. (2018). The science and translation of lactate shuttle theory. Cell Metabolism, 27(4), 757–785.
https://doi.org/10.1016/j.cmet.2018.03.008

Gladden, L. B. (2004). Lactate metabolism: a new paradigm for the third millennium. Journal of Physiology, 558(1), 5–30.
https://doi.org/10.1113/jphysiol.2003.058701

Seiler, S. (2010). What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291.


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