O que inclui um bikefit? O guia definitivo contra os mitos do mercado
Esta é uma pergunta que recebo cada vez mais vezes, seja por mensagem nas redes sociais ou através de chamadas telefónicas no nosso gabinete. Há cerca de 15 anos, quando o bikefit ainda dava os seus primeiros passos em Portugal, eu tinha um texto padrão preparado que enviava com muita frequência. Na altura, a resposta urgente destinava-se a esclarecer outra dúvida: “O que é um bikefit?”
Embora não seja um conceito novo, a verdade é que quando comecei a explorar a biomecânica aplicada ao ciclismo, há mais de uma década e meia, o cenário era deserto. Existia apenas uma pessoa a trabalhar nisto em Portugal, pouco mais de meia dúzia em Espanha, o mesmo panorama em Inglaterra e, no resto da Europa, desconheço qual era o panorama por falta de informação à data.
Iniciei o meu percurso com aquela que continua a ser uma ferramenta super válida e a mais utilizada no meio académico para análise biomecânica: o software Kinovea. Mais tarde, demos um salto gigante ao adquirir a primeira ferramenta de avaliação 3D em tempo real a entrar em Portugal. Foi uma evolução técnica massiva na capacidade de análise, ultrapassando o que existia e o que ainda hoje se comercializa no mercado, como a conhecida tecnologia Retül. O Kinovea ainda hoje é uma ferramenta fantástica e mantém-se como a base ensinada nas faculdades para a análise do movimento humano.
A evolução da dúvida: Do “O que é” para “O que inclui”
Se os sistemas evoluem, as perguntas também acompanham essa progressão. Hoje, o conceito base do bikefit já está massificado, mas a questão “o que inclui um bikefit?” impõe-se como a pergunta do momento. Se há quinze anos a escassez de informação na internet limitava o conhecimento, hoje a dúvida nasce de um misto de curiosidade genuína e de uma profunda confusão criada por quem opera neste mercado. Porque sim: o bikefit tornou-se, infelizmente, num mercado puramente comercial.
É uma realidade com a qual não concordo. O desporto em Portugal ainda carece de uma regulação clara e fiscalização firme. Atualmente, qualquer pessoa pode intitular-se especialista e operar na área sem deter as competências, as cédulas profissionais de desporto ou a formação académica necessária para o efeito. Tratando-se de saúde e performance, a exigência devia ser máxima. Mas esse é um debate para outro artigo.
O foco atual na pergunta “o que inclui” surge como reação direta a campanhas de marketing agressivas. Promessas que tentam vender mais do que a real capacidade de apresentar resultados tangíveis, gerando a ilusão de que o serviço pode ser fatiado.
Aviso Fundamental: Não é possível realizar um bikefit por partes. É biologicamente inviável separar uma avaliação biomecânica por zonas do corpo, porque o corpo humano funciona como um todo integrado. Ou avaliamos de A a Z, ou não estamos a fazer absolutamente nada.
A Anatomia de um Bikefit Completo e Integrado
Uma avaliação biomecânica séria começa muito antes de o ciclista subir para cima da bicicleta. Começa no exato momento em que entra no gabinete. A observação de como a pessoa caminha e a condução de uma anamnese clínica e desportiva detalhada são os alicerces do processo. Perguntas que parecem inocentes ou meros quebra-gelos — como o volume de treino, o histórico de lesões, os objetivos e as dores específicas — são cruciais.
Tal como um médico experiente identifica a palidez ou a postura cabisbaixa de um paciente assim que este entra no consultório, a experiência acumulada permite-nos ler o atleta antes de qualquer métrica digital. A evidência e a prática clínica apresentam-se à frente dos olhos.
1. Os Alicerces: Ajuste de Sapatos e Cleats
Na biomecânica, tal como na arquitetura, tudo se constrói a partir da fundação. O ajuste milimétrico dos sapatos e dos cleats (no BTT) ou travessas (na estrada) assume uma importância crítica. Um erro neste ponto compromete toda a cadeia cinética do membro inferior.
A dormência nos pés, por exemplo, é um sintoma clássico que resulta de uma combinação de três fatores: travessas mal posicionadas, escolha de sapatos com a forma errada e falta de suporte plantar estruturado. Esta instabilidade severa provoca muitas vezes o chamado joelho valgo (o joelho a ceder para dentro durante a fase excêntrica), potenciando dores crónicas e lesões graves na articulação.
2. A Análise Dinâmica em Carga
É no rolo, sob aplicação de carga progressiva, que o movimento se revela. Observamos a reação neuromuscular do praticante, o alinhamento dos membros e a estabilidade pélvica. O comportamento do ciclista sob esforço dita a necessidade de ajustes, na escolha de palmilhas personalizadas e na gestão da flexibilidade muscular.
3. A Ergonomia Pélvica e o Mito dos Medidores de Pressão
A forma como o praticante roda a bacia denuncia imediatamente a compatibilidade ergonómica com o selim. O conhecimento profundo de anatomia e fisiologia dispensa sistemas puramente comerciais de medição de pressão. Nenhum software ou tapete de pressão consegue converter um selim anatomicamente inadequado para aquele ciclista numa peça confortável ou funcional. O que resolve é o posicionamento correto e a escolha do design ergonómico certo.
4. O Cockpit Superior: Braços, Guiador e Manetes
A postura dos braços, a rotação dos ombros e o ângulo dos punhos comunicam de forma clara a correta altura, alcance e inclinação do guiador e das manetes. Cada milímetro alterado na dianteira reflete-se na distribuição de peso sobre o selim e os pés. Tudo está interligado numa peça única.
Conclusão: Quem vende por partes, demonstra ignorância
Tentar comercializar um bikefit fatiado — ajustando apenas a frente, a traseira ou os sapatos de forma isolada — não é apenas uma estratégia comercial questionável; é uma demonstração de pura ignorância técnica sobre o movimento humano.
No ProjetoPEDAL, o nosso foco é a análise holística do movimento. Corrigimos rigorosamente tudo o que está ao nosso alcance técnico, elaboramos um relatório detalhado com as alterações e recomendações de material, e desafiamos o ciclista a expor todas as suas dúvidas durante a sessão para que saia esclarecido.
Um bikefit ou inclui a totalidade da análise corporal e mecânica, ou simplesmente não é um bikefit.
Boas pedaladas.
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