O que leva os ciclistas a não utilizarem as tão conhecidas ciclovias? Quais poderão ser os problemas por trás desta opção?
Este é um artigo de opinião, baseado na minha experiência pessoal e em dezenas de conversas informais, bem como em reuniões oficiais com entidades responsáveis pelas infraestruturas e pelo comportamento dos automobilistas. Procuro aqui identificar os principais problemas e apontar soluções, inspiradas em modelos sociais bem-sucedidos.
O problema Não há apenas um problema — há um conjunto deles. Mas podemos resumi-los numa só palavra: cultura.
Há regiões de Portugal que, ainda hoje, são apontadas como bastiões da utilização da bicicleta, como Ovar e Aveiro. Seria interessante promover um estudo para perceber por que motivo essa cultura não se manteve ou foi replicada por outras regiões do país. Será pela densidade industrial? Pela tradição geracional? Ou pela ligação umbilical à produção de material velocipédico que ainda hoje coloca Portugal entre os maiores produtores mundiais?
Muitos dizem que o terreno plano favorece a utilização da bicicleta. Concordo. Mas e quando a cultura ciclista antecede as infraestruturas? Em Ovar e Aveiro, o uso massivo da bicicleta surgiu antes das ciclovias — ao contrário do que se verifica noutros locais, onde a criação de ciclovias é apresentada como principal estímulo à sua utilização.
Acredito que o boom da classe média, os fundos europeus e a eliminação das linhas férreas contribuíram para uma viragem de paradigma. Construíram-se cidades em torno do automóvel. O carro passou a ser símbolo de progresso e liberdade. Vieram os seguros obrigatórios, a ilusão de impunidade e o aumento da poluição, ocupação do espaço público, desgaste das infraestruturas e congestionamento urbano.
As cidades cresceram à volta do automóvel, mas já não há espaço para mais carros. A solução, como mostram cidades de referência, não passa por mais estradas — passa por menos carros.
Com o surgimento de uma nova consciência social, a bicicleta voltou ao centro da discussão. As elétricas democratizaram o uso e a mobilidade suave tornou-se bandeira. Mas com ela vieram as ciclovias. E foi aqui que Portugal falhou.
Em 2012 criei o nome “ProjetoPedal” para dar forma às minhas ideias sobre mobilidade. Nessa altura, percorri vários municípios do Grande Porto para apresentar sugestões — como cidadão. Fui, em geral, bem recebido, mas percebi algo grave: as ciclovias estavam a ser desenhadas por quem não anda de bicicleta.
Projetos desenhados em computador, onde tudo corre bem porque os carros andam ordeiramente, ignorando a realidade das ruas.
A ciclovia da Asprela, por exemplo, construída para servir os polos universitários do Porto, é insegura e desadequada. A ciclovia da Avenida da Boavista foi ocupada por carros mal estacionados. Em Matosinhos, alguém decidiu dividir um passeio já exíguo para criar uma ciclovia partilhada com peões. A medida foi revertida em poucos dias.
O problema não é a existência das ciclovias. É o mau planeamento, a falta de segurança e a incompatibilidade com o espaço urbano real. Ciclovias com obstáculos, interrupções, carros estacionados e sinalização confusa não promovem o uso — afastam-no.
As possíveis soluções Ciclovias seguras e funcionais só são possíveis de duas formas:
- Em ruas construídas de raiz para esse fim;
- Em ruas redesenhadas, com acalmia de trânsito (estreitamento de faixas, lombas, zonas 30, etc.).
Os países que implementaram políticas bem-sucedidas não o fizeram plantando ciclovias ao acaso, mas limitando o uso do automóvel e promovendo um modelo de cidade centrado nas pessoas.
Portugal não precisa de mais estradas — precisa de melhor utilização do que já existe. Promover o uso da bicicleta passa por garantir segurança e penalizar quem põe os outros em risco. Se um automobilista não sabe partilhar a estrada, que perca a carta. Talvez assim compreenda a perspetiva de um ciclista.
A defesa do peão e do ciclista faz-se com evolução social. Quero acreditar que estamos no caminho certo. Tal como deixámos de resolver disputas com pistolas ao amanhecer, também deixaremos de ver as ruas como propriedade exclusiva dos carros. Afinal, os romanos criaram as estradas para transportar pessoas e mercadorias — não para glorificar o automóvel.
É tempo de devolver as ruas a quem de direito.
texto: Pedro Silva
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