Uma reflexão sobre os limites da genética no desporto
Ao longo da história do desporto, temos visto feitos incríveis que desafiam os limites do corpo humano. Recordes batidos, desempenhos sobre-humanos, carreiras forjadas com dedicação e sacrifício. Mas por trás do esforço visível, há um fator invisível que continua a intrigar atletas, treinadores e cientistas: a genética.
A expressão popular “Quem nasceu para lagartixa, nunca chegará a jacaré” pode soar fatalista — como se estivesse a negar a importância do treino, da persistência e da paixão. Mas levanta uma questão pertinente: até que ponto a genética determina o sucesso no desporto?
O que dizem os estudos?
A investigação científica tem demonstrado que a genética desempenha um papel significativo no desempenho desportivo. Estudos com gémeos (como os famosos Twin Studies) e investigações como o Estudo HERITAGE revelam que:
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A força muscular pode ter até 50% de hereditariedade;
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A capacidade aeróbica máxima (VO₂máx) é fortemente influenciada por variantes genéticas, podendo até 40–60% da variação entre indivíduos ser explicada pela herança genética;
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A resposta ao treino físico também varia consoante o perfil genético — alguns atletas melhoram muito com pouco treino, outros necessitam de estímulos maiores para obter ganhos modestos.
⚖️ Genética vs Treino: quem manda?
A genética fornece o potencial biológico, mas não substitui o treino, a estratégia e o mindset. Dois atletas com perfis genéticos semelhantes podem ter desempenhos muito diferentes ao longo da carreira consoante a sua motivação, condições de treino, ambiente social e saúde mental.
Por outro lado, há limites que não conseguimos ultrapassar apenas com esforço. Um atleta com predominância de fibras musculares do tipo I (lentas) nunca será um sprinter de elite. Tal como alguém com VO₂máx baixo dificilmente terá sucesso nas provas de endurance mais exigentes.
O perigo das comparações
Um dos maiores erros que um atleta — profissional ou amador — pode cometer é comparar-se com os outros sem considerar as diferenças genéticas e contextuais. Esta comparação pode levar a frustração, lesões por sobrecarga ou até abandono da prática desportiva.
O foco deve ser: como posso desenvolver o MEU potencial ao máximo?
A genética dita o ponto de partida, não o ponto de chegada
A ciência mostra que não somos todos iguais no ponto de partida, mas também deixa claro que quase todos podemos melhorar significativamente com treino estruturado e consistente. E, acima de tudo, que o prazer pelo desporto, a saúde e a superação pessoal não dependem do nosso ADN.
Conclusão
“Quem nasceu para lagartixa, nunca chegará a jacaré”… talvez. Mas a lagartixa pode treinar, crescer, adaptar-se e surpreender. Porque no desporto — como na vida — os limites são reais, mas muitas vezes estão mais na cabeça do que nos genes.
Referências científicas:
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Bouchard, C. et al. (1999). HERITAGE Family Study.
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De Moor, M.H.M. et al. (2007). Genetics of sports participation and performance.
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Tucker, R. & Collins, M. (2012). What makes champions? A review of the relative contribution of genes and training to sporting success.
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