Desde a Antiguidade que o desporto serve como o derradeiro palco de afirmação. Dos campos da Grécia Helénica, onde nasceram os primeiros heróis das arenas, até à era moderna, o rendimento desportivo foi muitas vezes sequestrado para servir de propaganda à supremacia das nações. O peso de uma medalha de ouro num Mundial ou nuns Jogos Olímpicos é tão avassalador que assistimos a episódios negros, como o programa estatal de doping na Rússia, que culminou na exclusão dos seus atletas das maiores competições mundiais.
Para estas potências, o desporto é uma arma de “soft power”. Mas, em pleno século XXI, continuar a reduzir o desporto à mera contagem de medalhas ou ao espetáculo televisivo é um erro crasso e uma demonstração de miopia política.
O Orçamento como Custo e a Falta de Estratégia
A nível governamental, o desporto em Portugal é frequentemente tratado como o “parente pobre” do orçamento de estado. É visto como um custo — algo que se financia se sobrar dinheiro — em vez de um investimento que gera riqueza.
Esta visão limitada deve-se à ausência de uma estratégia nacional a longo prazo. Os ciclos políticos de quatro anos são incompatíveis com os benefícios da atividade física, cujos frutos mais sumarentos se colhem em décadas, não em legislaturas. Ignorar o poder do movimento na sociedade é, por incompetência ou conveniência, condenar o país a uma fatura de saúde pública insustentável.
Enquanto por cá ainda discutimos se o desporto é “lazer”, os países nórdicos já fizeram as contas: por cada euro investido no desporto e na atividade física, o retorno para a sociedade é de 3 a 4 euros. Este retorno materializa-se na redução direta da despesa farmacêutica, no alívio do SNS e no aumento da produtividade laboral.
O Elefante na Sala: Medicalização e Obesidade
Não é por acaso que Portugal regista recordes europeus na prescrição e consumo de antidepressivos. Vivemos numa sociedade que prefere tratar o sintoma com uma pastilha do que a causa com movimento. O desporto, e em particular o ciclismo pelo seu contacto com a natureza, é um dos mais potentes ansiolíticos naturais, mas continua ausente das “receitas” prioritárias.
Entretanto, o verdadeiro “elefante na sala” continua a crescer: a obesidade infantil. Portugal vê os números disparar, hipotecando a saúde das próximas gerações. Estamos a criar crianças sedentárias que serão adultos doentes. Doenças como a Diabetes Tipo 2 surgem como o “bónus” inevitável desta inatividade.
A Armadilha da Desresponsabilização
A solução para estas patologias não deve — nem pode — assentar exclusivamente em medicamentos. Exige uma mudança radical de estilo de vida. Ao rotularmos sistematicamente como “doença” aquilo que é, na sua génese, uma consequência direta de escolhas e de um ambiente sedentário, estamos a promover a desresponsabilização.
Chamar doença ao que pode ser transformado pelo próprio, através do movimento e da disciplina, é retirar ao indivíduo a agência sobre o seu próprio corpo e transferir para o Estado um fardo que começa na inércia.
Conclusão: Um Investimento de Sobrevivência
A miopia política reflete-se na incapacidade de ver que investir no desporto não é dar dinheiro a federações; é comprar anos de vida saudável para a população. O desporto não é um luxo de domingo; é a ferramenta mais democrática de liberdade individual e sustentabilidade económica. Se queremos salvar o SNS, temos de tirar as crianças do sofá e os adultos da farmácia. É uma questão de visão e de sobrevivência nacional.
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