Depende.
Deves fazer uma colonoscopia numa casa de banho? Só porque é o sítio onde baixas as calças, não significa que devas baixar as calças para outra coisa também. Cada coisa no seu lugar.
E é precisamente por aqui que começa esta conversa.
Antes de mais, convém separar o trigo do joio. Em Portugal, existem várias áreas diretamente ligadas à saúde que vivem numa espécie de zona cinzenta no que toca à regulamentação. Basta olhar para a indústria cosmética ou para o mundo da suplementação. Estamos a falar de produtos que entram no corpo humano, que influenciam o seu funcionamento, e que, ainda assim, muitas vezes escapam a um escrutínio verdadeiramente rigoroso.
Na prática, qualquer pessoa com algum conhecimento básico, matéria-prima e uma betoneira — metaforicamente falando — pode criar um produto, colocar um rótulo apelativo e colocá-lo no mercado. E o consumidor, esse, fica entregue à sua própria capacidade de discernimento.
E aqui entra um ponto crítico.
Vivemos, felizmente, num país democrático, onde no final do dia o escrutínio cabe ao cidadão. O problema é quando o cidadão não tem ferramentas, conhecimento ou contexto para fazer esse discernimento.
Porque, nesse cenário, estamos a pedir às pessoas que façam escolhas técnicas sem base técnica.
É o equivalente a entrar num consultório médico sem qualquer garantia de que quem está à nossa frente é, de facto, médico. E sejamos honestos: nenhum de nós entra numa consulta e pergunta “o senhor doutor é mesmo médico?”. Partimos do princípio de que há um sistema, uma validação, uma estrutura que garante competência.
Mas no bikefitting, isso não existe.
Não basta colocar um estetoscópio ao pescoço para alguém ser médico. Da mesma forma, não basta ter uma bicicleta num rolo, meia dúzia de sensores e um software para alguém dominar biomecânica.
E é aqui que a problemática se torna evidente.
Um sapateiro — ou qualquer outra profissão completamente legítima, mas fora da área — pode amanhã investir num sistema de análise biomecânica e, no dia seguinte, apresentar-se ao mercado como especialista. Sem base científica sólida. Sem formação estruturada. Sem experiência clínica.
E o consumidor? Confia. Porque não sabe distinguir.
Ora, no bikefitting e na biomecânica aplicada ao ciclismo, o fenómeno não é muito diferente.
Ao longo dos últimos anos, assistimos a um crescimento acelerado desta área. Não necessariamente por uma evolução orgânica do conhecimento ou da prática clínica, mas muito impulsionado por modelos de negócio simplificados, muitas vezes assentes em sistemas de franchising. Sistemas esses que prometem algo muito sedutor: com poucas horas de formação, qualquer pessoa consegue “analisar” o ciclista, identificar problemas e, em alguns casos, até corrigi-los.
É aqui que a coisa começa a ficar séria.
O ciclismo é um desporto. E como qualquer desporto, está intrinsecamente ligado ao corpo humano. Logo, está ligado à saúde. E quando falamos de saúde, não podemos aceitar ligeireza.
Ajustar uma bicicleta não é apenas subir ou descer um selim, avançar um avanço ou trocar um componente. Estamos a falar de intervir sobre padrões de movimento, sobre cargas articulares, sobre equilíbrio muscular, sobre eficiência mecânica e, acima de tudo, sobre prevenção de lesões.
E isto levanta uma questão inevitável: que legitimidade tem alguém com 20 ou 40 horas de formação para trabalhar sobre um sistema tão complexo como o corpo humano?
A resposta honesta é simples: não tem.
Ainda assim, é exatamente isso que vemos todos os dias. Serviços vendidos como “bikefit profissional” em contextos onde o foco principal continua a ser a venda de bicicletas e componentes. E atenção: não há problema nenhum em lojas fazerem ajustes básicos ou aconselhamento. O problema começa quando se confunde ajuste comercial com intervenção biomecânica.
Porque não são a mesma coisa.
Um bikefit sério deve assentar em conhecimento sólido de anatomia, fisiologia, biomecânica e até, em muitos casos, reabilitação. Deve envolver avaliação, contexto clínico, histórico do atleta, objetivos e limitações. E, idealmente, deve ser feito por profissionais com formação na área da saúde ou do movimento humano.
Caso contrário, estamos apenas a mascarar um serviço técnico com linguagem científica.
E isso, mais cedo ou mais tarde, paga-se — normalmente em forma de dor, desconforto ou lesão.
Por isso, voltando à pergunta inicial:
Deves fazer um bikefit numa loja de bicicletas?
Depende.
Se procuras um ajuste básico, rápido, orientado para conforto imediato ou para afinar uma compra recente, pode fazer sentido.
Mas se tens dores, histórico de lesões, objetivos desportivos claros ou procuras otimizar verdadeiramente a tua performance e saúde, então a resposta é outra: procura alguém qualificado, com formação séria e experiência comprovada.
Porque no fim do dia, não estás apenas a ajustar uma bicicleta.
Estás a mexer no teu corpo.
E isso merece mais do que um curso de fim de semana.
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